Foi no Verão, num almoço que era uma confusão de gente, quando tinha uns cinco ou seis anos que percebi com o que podia contar. Sentei-me no terraço, para que a outra não me visse, e escrevi num papel encarnado alguma coisa, que te queria dar, como as flores que dava a minha mãe na Primavera. Não me lembro, com toda a franqueza o que era, penso que andaria na primeira ou segunda classe, e queria no fundo, que percebesses como eu já desenhava tão bem as letras. Dobrei o papel em 4, parece que o visualizo, e sem correr fui ate ti, abri o papel sem te dar, queria que gabasses a minha letra, queria que visses como fazia bem os “ás” com a perninha, a outra disse com ar que tu sabes que ela tem, “Andas num infantário?”.Naquele dia, eu recuei e amarrotei a folhinha, achei-te parvo e triste. Aquela tua imparcialidade, aquele teu não vou lá nem deixo de ir, irritava-me profundamente ate á bem pouco tempo, em vez disso fazias-me perguntas ridiculamente estúpidas para a minha idade, ou então preocupavas-te com coisas igualmente inúteis que até para uma criança de seis anos eram difíceis de entender, para quem aprendeu a ver a coragem de uma avó como a minha.
Sabes o que me irritou mais em ti, desde sempre? Sim, também aquela tua insistência em que eu tinha de ter caprichos parvos como daquela vez do relógio das spice grils. Eu não o queria, podia querer mas não, não era isso que me interessava, gostava dos sapatos brancos do laço que me deste e de um cão de peluche que mais tarde me fazia espirrar a mim e a toda a gente que entrava no meu quarto, eu recordo-te, era um animal de peluche enorme com um laço rosa ao pescoço, que a minha mãe me disse que ficava bem na minha cama, e que não devia cortar nem pentear o cabelo (como me apetecia), porque lhe estragava aquele alisamento todo do pelo.
E foi essa a recordação que tive de ti durante anos, não foi o teu jeito que te assentava estupidamente bem, com o tempo fui percebendo que tudo era mais ridículo ou trágico do que me tinha apercebido na infância, tentavas a todo o custo encontrar uma falha na minha felicidade, na minha diferença educada, pausada e delicada mas não a encontravas, e isso deixava-te visivelmente frustrado, como se perante a minha satisfação me torna-se algo mais que a tua passividade.
Mais tarde, num dos Natais, e o único que tenho recordação, apareces-te tarde de mais.E só quando apareces-te é que me lembrei de ti. Os miúdos pediam-me jogos e eu evitei que eles destruíssem a arrumação que tinham preparado para aquele dia, quer dizer que alguém preparou, a outra mal se consegue mexer e a queriduxa passou o tempo todo a chamar-me de você, a mim e a todos os miúdos de dois anos. Os miúdos são encantadores ainda hoje, e são o reforço que foste o último da tua espécie. São especiais ao seu jeito, mas a minha fé que a tua passividade acabasse com eles, não passou de fé.
No meio de tanta confusão ficamos os dois lado a lado, a rir-nos dos disparates compulsivos, que a prima rica como tu, disse a noite toda com uma piela que só ela. Fiquei contente por teres participado com os miúdos, no karaoke. Quando tocam a campainha, era uma senhora que queria dar ao sôtor um cabaz, por ter tratado do filho que até então era jogador de futebol, dos bons, um rapaz magrela e que carregava nos “s”, que aparentava ser boa pessoa. Não, não vou dizer que esse dia foi mau, estavas lá. Passivo como sempre.
Agora eu sei, que o que me irritava mais era não poder não gostar de ti, eu também odeio isso em mim! Tu não deixas que as pessoas te odeiem, tratas os seus sentires de forma amenizar as coisas, então as pessoas só deixam de te amar tanto, e os sentimentos ficam incompletos.
Durante anos tu subestimas-te as minhas capacidades, porque achavas que precisava do teu fundo económico comunitário para me manter firme.
Se eu senti a tua falta? Senti. Mas desde aquele dia algo se perdeu. Durante todos os anos eu fiz questão que os teus presentes da escola ficassem feios e mal pintados e fiz questão de o dizer “Não ficou lá muito bem.”
De facto eu precisei de ti, tinha medo do escuro e essas tretas, não percebia bem como dar o lacinho aos meus sapatos, e fiquei contente e conquistada quando me deste uns tennis da Barbie sem atacadores.
Então agora vamos á resposta em concreto, eu respondo ao que tu queres saber á meses. Eu vi a tua admiração quando me viste, vi-te olhar para os meus saltos, e depois para o meu cabelo. E quando falei e os miúdos disseram que me parecia contigo a falar quase me afundei em magoa, mas depois foram percebendo que não. Vi-te ficar aflito com as minhas respostas, confesso que as treinei durante anos. Seleccionei-as, e modifiquei-as. Já não te permitia as básicas, como as da faculdade ou as relativas ao meu padrinho de 100 anos, que está naturalmente velhinho.
Exigi mais, a ti e á outra. Queria que vocês fossem o meu pano de fundo, assim para eu mostrar o trabalho que não tinha sido feito por ti. Era imprevisível o quanto possível, a velhinha categorizava-me como a preferida e sentia que querias saber porque. Mas o que te roeu foi o que me saiu de forma incontrolada e quando já tinha feito todas as provas, “è natural que não saibas, não me conheces bem”, não eu ainda não me tinha esquecido da regra de não te chamar por você, para parecer-mos mais próximos, digo eu.
Nesse mesmo dia, e perante as tuas tentativas de saberes inutilmente compreender quem eu era, quiseste com toda a força que saísse para tomar café, contigo, um amigo teu vermelho e baixinho, insistiu comigo para que me lembrasse das suas feições, eu respondi “Não me recordo, peço desculpa.” E quando ele perguntou, olhas-te para mim e disseste “Sim é ela, esta crescida.”Crescida? Crescida uma porra, tenho 20 anos, muitas mais possibilidades do que tu, e custou-me tanto a crescer a ser assim como eu sou!
Então contudo eu respondo-te, tu assustaste-me á muitos anos atrás, porque não me questionas-te com coisas básicas assustaste-me para sempre, porque nunca me fizeste sofrer o quanto baste para não gostar de ti.
É por tudo isto, que não me podes nunca cobrar um telefonema num dia especial.È por tudo isto, que não me podem cobrar nem um pedacinho. Porque eu treinei muito não o fazer, e treinei muito ser assim. E isto, é só um pequeno excerto para que compreendas uma vida paralela á tua. As pessoas não se guardam para que só cresçam quando queremos, crescem, formam-se e são felizes.
Um dia, um dia eu conto-te uma história, dessas que nunca ouvi de ti, mas não faz mal eu já escrevi a minha, com a minha letra desenhada, e com “ás” perfeitos.
Use somebody
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